O Manual da Mídia Legal não se restringe a orientar no que se refere à terminologia (porque a mídia não precisa usar "portador" e porque deve usar, sem receio, a palavra "deficiência") ou a enfoques ideológicos ("a maioria das reportagens usa a palavra inclusão, mas fala de integração"- conceitos distintos). Inédito é o fato do Manual da Mídia Legal conter a análise de reportagens e anúncios feita por 15 universitários da Uerj capacitados como Agentes da Inclusão durante o 1º Encontro da Mídia Legal - de agosto a outubro de 2002 (5 de ciências sociais, 5 de comunicação e 5 de direito). A capacitação foi feita pela Escola de Gente e pelo Ministério Público.
Duas normas internacionais pouco conhecidas no Brasil nortearam o Encontro e o Manual: a Resolução 45/91, da ONU, que dispõe sobre o conceito de sociedade inclusiva, e a Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência, conhecida como Convenção da Guatemala. Esta Convenção deu origem ao Decreto Presidencial nº 3.956, de 08 de outubro de 2001, que pela primeira vez no Brasil esclareceu o que "é discriminar com base na deficiência". Este Decreto tem tanto valor quanto uma norma da Constituição Federal, pois se refere a direitos e garantias fundamentais da pessoa.
O Manual da Mídia Legal também traz reflexões. Nas análises das matérias fica claro o quanto, se o tema é deficência, a imprensa reproduz dados das fontes sem questioná-los. Isso é freqüente em reportagens sobre escola ou trabalho inclusivos. Basta ter um aluno/a ou um/a funcionário/a com qualquer deficiência para que a fonte utilize o adjetivo "inclusivo", prontamente reproduzido pelo jornalista. Por isso o objetivo do Manual é ajudar comunicadores a ter um olhar mais desconfiado sobre suas certezas e as certezas de suas fontes. A jornalista Claudia Werneck, diretora da Escola de Gente, se inclui como agente dos equívocos comentados no Manual: "Somos adultos desprovidos de uma visão crítica sobre o assunto deficiência, e essa postura ingênua não muda de repente, como mágica, se nos tornamos familiar de uma criança com autismo, um superjornalista investigativo ou uma publicitária engajada em questões sociais. É preciso muito mais para aprendermos a fazer o que raramente nos ensinaram na vida - a não-discriminar".
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